terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Informação vs. Proibição

Estive recentemente em Las Vegas e uma coisa me chamou bastante a atenção.  Em quase todos os cassinos que visitei era permitido fumar, embora os locais fossem totalmente fechados.  Apesar da fumaça, não encontrei ninguém incomodado.  Nem mesmo uma amiga que viajava conosco, daquelas que, no Brasil, não pode ver alguém fumando lá longe que já começa a abanar as mãos, parecia incomodada.
Pelo menos num desses locais havia um aviso à entrada: “Nesta propriedade é permitido fumar”.  A mensagem oculta era: se você se incomoda com a fumaça do cigarro, não entre.  Simples, não?  Quem decide que o fumo é permitido ou proibido é o dono do estabelecimento, de acordo com seus próprios critérios.  Por que não poderia ser assim em qualquer lugar?  A informação deve ser obrigatória, e a escolha, do freguês.  Certamente, haveria muitos locais onde o cigarro seria proibido, e alguns outros em que fosse permitido.
Mas não.  Isso seria dar liberdade demais às pessoas, que, obviamente, não sabem cuidar de si mesmas e precisam da tutela do Estado-Babá.  Como escrevi alhures, osproibicionistas sentem uma necessidade irresistível de ditar o que deve ser feito, como deve ser feito e quando deve ser feito. Alguma força avassaladora os compele a nos proteger de nós mesmos. A ideia de permitir que as pessoas sigam o seu próprio destino — às vezes errando, outras vezes acertando, eventualmente até morrendo por causa do caminho que escolheram — está além da sua compreensão, pois a imperfeição, para eles, é algo inadmissível.
Aqui em Pindorama, entrou em vigor, no início deste mês, uma lei que proíbe o fumo em praticamente qualquer lugar, exceto em vias públicas e nas residências (ufa!, pelo menos na minha casa ainda mando eu), o que alguns proibicionistas, do alto da sua imensa sabedoria e preocupação com a saúde e bem estar alheios, acham um absurdo.  De acordo com a lei, os estabelecimentos comerciais que permitirem o fumo em suas dependências estarão sujeitos a multas que vão de dois mil a um milhão e meio de reais.
Antes que alguém me acuse de estar advogando em causa própria, eu não fumo há mais de 15 anos e a fumaça dos outros não me é agradável, tampouco. Mas acho também que nós não devemos forçar nossas preferências sobre os demais.
Benjamim Franklin costumava dizer: “quem abre mão da liberdade, em nome de alguma segurança, não merece nem uma nem outra”. A liberdade pressupõe algum tipo de risco. Pessoas maduras não abrem mão da responsabilidade de comandar o destino de suas vidas. Esse comportamento adulto, no entanto, parece ter sido deixado de lado por muitos, senão pela maioria, na vã esperança de que governos todo-poderosos possam fazer por nós escolhas melhores sobre nossas próprias vidas do que nós mesmos.
João Luiz Mauad

A História do Thanksgiving Day nos EUA. Ou: A Insensatez Coletivista


“A relação entre cada homem e os frutos do seu trabalho é muito forte … “seu” e “meu” são expressões comuns em todas as línguas, familiares entre os selvagens e entendidas mesmo pelas crianças”. 
John Maynard Keynes
pilgrimOs americanos comemoram nesta quinta-feira o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day).  Este é um dos feriados mais importantes do calendário deles, quando as pessoas, independentemente de religião, se reúnem para agradecer a fartura e a prosperidade.  O Thanksgiving é uma tradição inglesa antiga que, nos Estados Unidos, teve início por volta de 1623 e faz parte de uma história tão interessante quanto educativa.
Uma das primeiras colônias a instalar-se na América do Norte foi a Plymouth Colony, estabelecida onde hoje é o estado de Massachussets, nos anos de 1620.  Numa experiência inédita até então, um contrato coletivo, assinado pelos imigrantes antes mesmo de sua chegada ao Novo Mundo, estabelecia um sistema no qual as propriedades seriam todas comuns.  Além disso, toda a produção deveria ser entregue para armazenamento comunitário, do qual cada indivíduo receberia uma fração igual, não importando com quanto contribuísse.
Como ensinara Aristóteles 2000 anos antes, “aquilo que é comum ao maior número despertará sobre si os menores cuidados”.  Na esteira da grande sabedoria do Estagirita e de acordo com a moderna teoria dos incentivos, os bons economistas ensinam que, quando as pessoas obtêm o mesmo retorno, não importa o esforço que precisem fazer, a maioria optará pelo empenho mínimo.  Não por acaso, portanto, a produção em Plymouth era insuficiente até mesmo para as necessidades da própria gente.  Faltava comida, embora sobrasse ócio e acomodação.
A insensatez coletivista levou rapidamente a economia da colônia à penúria.  Em 1623, apenas dois anos após a chegada dos primeiros Pilgrims, a fome já era desesperadora.  William Bradford, que viria a ser governador da província algumas vezes, assim descreveu aquele triste momento da história americana em seu famoso diário:
“Aquela experiência durou alguns anos … e bem evidencia a vilania deste conceito de Platão e outros patriarcas antigos, aplaudido por muitos ultimamente, segundo o qual se acabarmos com a propriedade, em prol da riqueza comum, isto fará a comunidade feliz e próspera… Para esta nossa comunidade (até onde aquilo poderia ser chamado de comunidade) o experimento causou muita confusão e descontentamento.  Os homens… lamentavam ter que gastar seu tempo e esforços trabalhando  para as mulheres e as crianças de outros homens, sem que obtivessem qualquer recompensa…”
Encurralada pelas terríveis circunstâncias, a liderança dos colonos resolveu abolir a estrutura socialista que engessava qualquer possibilidade de progresso, transferindo para cada família uma parcela das terras, e permitindo o usufruto de tudo quanto seu trabalho produzisse. A eliminação da propriedade comunal em favor da propriedade privada logo mudou o panorama.  Os colonos rapidamente começaram a produzir muito mais do que eles mesmos poderiam consumir.
Não tardou para que o comércio também florescesse e os excedentes da produção fossem trocados com os índios, que lhes entregavam carnes de caça e peles, estas últimas exportadas com largas margens de lucro para a nobreza europeia.“Esta decisão foi um grande sucesso, pois tornou todas as mãos diligentes e industriosas”, escreveria Bradford pouco tempo depois.
Uma das virtudes da propriedade privada é justamente estabelecer a conexão entre esforços e ganhos, custos e benefícios, criando incentivos para que as pessoas produzam conforme as suas necessidades e ambições. Porém, o direito de propriedade é também, e acima de tudo, a melhor arma contra a barbárie, a garantia de que o pão obtido com o suor do próprio rosto não será
tomado de ninguém arbitrariamente.

João Luiz Mauad

Fonte: http://www.institutoliberal.org.br/blog/historia-thanksgiven-day-nos-eua-ou-insensatez-coletivista/