quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O choque da volta ao Brasil, os sapos escaldados e o garçom engenheiro


Arrastão

Arrastão em Ipanema. Isso NÃO é normal, tampouco é culpa da “sociedade”.
Minhas “quase férias” estão chegando ao fim. Tentei, nesse período, atualizar o blog diariamente, mas claro que o ritmo caiu bastante. Era preciso renovar as baterias para enfrentar o ano que vem pela frente, de muitos desafios e inúmeros problemas econômicos e políticos. Mas não deixei de acompanhar, ainda que com alguma distância, o noticiário brasileiro.
Já sei o que me espera na volta: o velho choque de culturas, o espanto e o lamento por abandonar a civilização e adentrar a terra da malandragem, do jeitinho, em meio aos tiroteios e riscos constantes de assalto ou arrastão. Fica sempre a dúvida no ar: volto por patriotismo ou masoquismo? Quero crer que é a primeira opção, e desejo muito ajudar na construção de um país melhor para minha filha e meus futuros netos.
Não é fácil, porém. Estou há 15 dias saindo para jantar caminhando pelas ruas tranquilamente, com minha filha ao lado, relógio de luxo no pulso, e voltando para o hotel às 23h sem receio algum, sem medo, sem olhar para os lados tenso. Aqui nos Estados Unidos, além desse direito básico de ir e vir ser respeitado, as regras também funcionam, para todos. Não preciso me irritar com os “malandros” que tentam tirar vantagem em tudo.
Como disse, acompanhei as notícias do Brasil, e para não variar, é só desgraça. Temos as maiores taxas de juros bancários desde 1999, e os eleitores de Dilma, aquela que iria “enfrentar os banqueiros”, fazem um silêncio ensurdecedor. O estelionato eleitoral não parece incomodar nossos “intelectuais”, aqueles que se julgam moralmente superiores só por terem digitado 13 nas urnas. Acham que se preocupam com os mais pobres por isso. Monopolizam as virtudes e ignoram os fatos.
Além da situação econômica terrível que vem por aí, há a questão da criminalidade. Arrastão nas praias de Ipanema, em frente ao hotel Fasano. São imagens que chocam qualquer povo civilizado, mas que fazem parte do nosso cotidiano. Arrastão na saída do Theatro Municipal, em plena tarde! E os “intelectuais” ainda dão um jeito de culpar a vítima para proteger os marginais, vistos como “vítimas da sociedade”. Só no Brasil mesmo!
Os sapos escaldados, acostumados com a quentura infernal que vai aumentando gradualmente, parecem tomar como normal aquilo que em qualquer país minimamente avançado seria visto com horror e incompreensão. Um leitor do GLOBO foi no cerne da questão hoje, ao rebater o comentário de uma das vítimas do arrastão:
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Exatamente. Não queremos admitir a peculiaridade que é viver num país sem leis, em que os “seres pensantes”, os professores, os “intelectuais”, ainda conseguem inverter tudo e culpar a vítima pelo crime.  Como um pai que se nega a enxergar o problema com as drogas do filho viciado, nós brasileiros preferimos a fuga para não encararmos de frente o absurdo país que construímos. Deu errado, mas achamos melhor tapar o sol com a peneira.
Fui jantar ontem num restaurante em Park City, Utah, novamente circulando pelas ruas cheias de neve na maior tranquilidade. O único receio era escorregar. O garçom, para minha total surpresa, perguntou: “Rodrigo? Rodrigo Constantino?” Era de Natal. Um brasileiro formado em engenharia, que chegou a trabalhar numa operadora de celular, mas que cansado da falta de oportunidades no Brasil, devido aos infindáveis obstáculos criados pelo governo, foi tentar a sorte nos Estados Unidos.
Hoje, Bruno possui um Green Card, está casado e feliz, e chega a poupar até US$ 15 mil na alta temporada, só com gorjetas. Gosta de viver sob um sistema de meritocracia, que recompensa quem trabalha duro. Sua família era de funcionários públicos, mas ele aprecia mais o risco que a estabilidade. Fez o curso de filosofia do Olavo de Carvalho e gosta de economia. Por isso me acompanhava e me reconheceu.
Bruno é um dos milhões de brasileiros que jogaram a toalha e desistiram do Brasil. E como podemos condenar sua atitude? Como podemos criticar sua decisão, quando lembramos que o eleitor brasileiro colocou o PT no poder por 16 anos? Como atacar sua escolha quando vemos a naturalidade com a qual os brasileiros lidam com um arrastão, uma afronta ao império das leis que deveria ser coibida com as mais severas punições para intimidar novos atos como estes?
A impunidade é o câncer brasileiro, e conta com o apoio dos nossos sociólogos, psicólogos, antropólogos e demais ícones de esquerda das ciências humanas que, via de regra, adoram cuspir no capitalismo, na meritocracia, no império das leis e na propriedade privada, justamente os pilares que fazem dos Estados Unidos a potência que são.
No Brasil, muitos chegam a culpar o dono do Rolex roubado pelo roubo, pois não deveria “ostentar” num lugar tão desigual. Assim como culpam os chargistas pelo atentado terrorista insano de muçulmanos fanáticos. Já nos Estados Unidos é considerado normal ter resultados desiguais, pois seres humanos são diferentes em suas habilidades, dons, esforços, mérito e sorte. A propriedade privada é respeitada. O império das leis não é flexível como no Brasil, para não dar espaço aos “malandros” que criam um país de otários.
Sim, é um texto de desabafo, em tom negativo, quase sombrio. E isso mesmo sem nem ter regressado ainda! É que sei o que me espera. Já antecipo a volta da tensão permanente, do medo de assaltos e arrastões, e de ter que “debater” com figuras que ainda conseguem defender isso tudo e culpar o capitalismo, a economia de mercado, a igualdade perante as leis por todos os males do mundo, enquanto pedem mais estado ainda para resolver os problemas criados pelo excesso de estado.
O Brasil cansa. O atraso intelectual de nosso país testa ao limite a paciência dos mais esclarecidos. Aliás, só o fato de ser um “atentado” falar em “mais esclarecidos”, pois o igualitarismo tosco do politicamente correto se enraizou de vez em nosso país, já desperta uma canseira que quase leva à apatia. Bocejo, mas depois sou tomado pela tristeza. O que fizeram com o meu Brasil?
Patriotismo ou masoquismo? Não sei ao certo. Só sei que em breve estarei de volta, com mangas arregaçadas para fazer a minha parte, para lutar contra o obscurantismo, a esquerda retrógrada, os socialistas, os relativistas culturais, os anticapitalistas de todos os tipos, e claro, os petistas no poder, essa máfia em forma de partido que representa o oposto de tudo que defendo. Não vou aceitar passivamente essa corja implantar o bolivarianismo em meu país.
Vou lutar pelo direito de minha filha e seus futuros filhos andarem com tranquilidade pelas ruas da cidade, algo visto como o básico do básico nos países desenvolvidos, e uma enorme e arriscada aventura em nosso país tupiniquim. Aguardem no local…
Rodrigo Constantino

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ainda o atentado em Paris: é preciso ter coragem para ter clareza moral

Muitas pessoas, diante do horror do atentado em Paris que matou jornalistas satíricos, apelam para um mecanismo de defesa que culpa as vítimas pelo que ocorreu. Falo em mecanismo de defesa pois há medo tanto do próprio radicalismo islâmico como de parecer um “islamofóbico” intolerante, e com isso perder pontos no ranking do politicamente correto, que demanda uma postura de compreensão elástica que abrange tudo.

Ou quase tudo. O politicamente correto exige que sejamos complacentes ao extremo com as “minorias”, entendidas aqui como tudo aquilo que não é homem branco ocidental cristão. Esses não precisam ser tolerados ou respeitados pois, como sabemos, são os responsáveis por todos os males do mundo. Já o restante deve ser visto como vítima oprimida desses vis opressores.
A covardia dessa postura salta aos olhos de quem não perdeu ainda o juízo. De uma forma ou de outra, são pessoas movidas pelo medo do Islã, pois no fundo sabem quem oferece real perigo. Criticar os Estados Unidos ou Israel, ou então os seguidores de Cristo, apelando para as mais escrachadas sátiras, não coloca a vida de ninguém em perigo. Feministas podem mostrar os seios dentro de uma igreja pois sabem que sairão de lá em segurança. O mesmo não se pode falar das mesquitas no Oriente Médio…
Há o risco de a reação ao atentado ser o recrudescimento de uma verdadeira “islamofobia” e o crescimento dos partidos de extrema-direita xenófobos na Europa? Sim. A democracia terá de vencer os bárbaros dentro das regras do jogo democrático, preservando a liberdade, o que não é tarefa fácil. Exige uma equação complicada, pois existe uma linha tênue que separa o pragmatismo da defesa incondicional dos nossos princípios democráticos e tolerantes.
O mundo livre e civilizado está em guerra contra bárbaros autoritários. Como quando se lutou contra nazistas, fascistas ou comunistas. Vencer os muçulmanos radicais será bem mais difícil. E toda ajuda será necessária, especialmente aquela dos muçulmanos mais moderados. Se eles não querem ser jogados na mesma vala desses assassinos que falam em nome de seu Alá, precisam ser ainda mais duros nas críticas aos terroristas. Precisam ter mais coragem ainda para condenar sem contemporização essa barbárie feita em nome de sua religião.
E o mesmo deverá acontecer nos países democráticos ocidentais. Infelizmente, não é o que vemos. Muitos, como já disse, adotam um discurso relativista que, de uma forma ou de outra, acaba jogando a culpa nas vítimas da barbárie, não nos bárbaros. Selecionei algumas cartas de leitores do GLOBO de hoje para mostrar isso:
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Esse “mas” logo depois da primeira frase já é condenável. Não tem “mas”! Notem que o Flávio tenta misturar no mesmo saco os muçulmanos e os cristãos, ignorando que no Ocidente já estamos cansados de ver Cristo sendo ridicularizado. Os crentes podem não gostar, claro. Mas nem por isso saem por aí matando os jornalistas! Não dá para comparar ambos. É evidente que nem todos os muçulmanos são terroristas, mas praticamente todos os terroristas atuais são muçulmanos. Clareza moral, Flávio!
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Essa já começou falando de limitar a liberdade de expressão, como se o culpado pelo atentado fosse o autor das charges, não o intolerante assassino que não aceita o contraditório. Ignora ainda que os satíricos parisienses também incluíam outras religiões em seus ataques ácidos, e que nem por isso temiam a morte por algum terrorista cristão.
Mariúza quer que se respeite a crença alheia, mas não parece respeitar a descrença alheia e seu direito de fazer piada com a fé dos outros. E ainda termina colocando no mesmo saco quem faz piada ofensiva aos crentes e quem mata aquele que faz isso, como se ambos fossem “fanáticos” perigosos. Uma equivalência moral entre assassinos e vítimas inaceitável.
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Esse foi bem até o final, mas escorregou depois, tendo de negar a história para ficar bem com o politicamente correto. Maomé não pregava apenas a paz e a luz, pois há várias passagens de ódio e violência no livro sagrado do Islã, e o próprio profeta foi um líder guerreiro que comandou quase 30 expedições militares contra os infiéis. Recomendo a biografia que o historiador Barnaby Rogerson escreveu sobre o fundador do Islã. Nela, fica mais claro que seus métodos não eram tão pacíficos assim…
Mas nem tudo é nebulosidade politicamente correta. Entre as cartas dos leitores, encontramos esta abaixo, um primor de objetividade e clareza moral:
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É exatamente isso. Bárbaros contra a civilização. Precisam ser contidos fisicamente e, acima de tudo, condenados no campo das ideias, sem contemporização, sem “mas”, por aqueles que desejam preservar a liberdade. O mundo civilizado necessita de clareza moral mais do que nunca!
Rodrigo Constantino

O mito da minoria radical muçulmana

Bem mais grave do que o mito da “minoria infiltrada de vândalos” nos protestos do Movimento Passe Livre em 2013 no Brasil é o da minoria radical muçulmana, decerto defendido pelos “especialistas” da Globo News. Não é difícil disseminá-lo. Basta mostrar às pessoas que os terroristas que matam inocentes são minoritários entre os muçulmanos e daí concluir que a maioria é pacífica uma vez que não comete atentado algum. Diga ainda que líderes de tais e quais entidades muçulmanas condenam os atos e pronto. Já convenceu os incautos.

O problema é que terroristas recebem apoio moral, financeiro e religioso daqueles que não são os próprios terroristas, mas que podem e devem ser chamados de radicais. No vídeo legendado abaixo, Ben Shapiro mostra por meio dos dados de pesquisas feitas em cada país com população muçulmana quantos indivíduos são radicais de fato.
Pois é. Mais de 800 milhões de muçulmanos são radicais. Mais da metade da população muçulmana na Terra. E, infelizmente, o mito da minoria radical muçulmana “ainda vai matar muita gente civilizada”, como supostamente aconteceu nesta quarta-feira em Paris, já que durante o atentado, parcialmente filmado por testemunhas nos prédios vizinhos, os agressores gritavam “Alá é grande”, em árabe. (A chargista Corinne Rey, que assina como Coco, presenciou o ataque e afirmou ao jornal francêsL’Humanité que os terroristas “falavam francês perfeitamente” e “reivindicaram ser da Al Qaeda”.)
Eu também havia falado aqui, aqui e aqui da histeria politicamente correta que, sob a bandeira do multiculturalismo, impede não só certas medidas de segurança que eventualmente podem salvar vidas, mas o próprio debate sobre quais delas seriam as mais eficazes para conter o avanço dos radicais islâmicos sobre o Ocidente.
Citei os casos emblemáticos do atirador de Fort Hood e dos terroristas de Boston, em que a morte de inocentes poderia ter sido evitada não fosse a irresponsabilidade – para dizer o mínimo – disfarçada de “tolerância” promovida pelo governo Obama, o mesmo que abriu caminho, como mostrei aqui, aqui eaqui, para os terroristas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, na sigla em inglês) cometerem as maiores atrocidades no Iraque, decapitando e executando cristãos, yazidis e até jornalistas internacionais.
Como escrevera João Pereira Coutinho no artigo “Nós, os vermes“: “Mas já seria um grande contributo se o Ocidente fosse um pouco mais intolerante com a intolerância daqueles que recebemos, alimentamos, sustentamos – e enlouquecemos de ódio com o ódio que sentimos por nós próprios.” Em seu livro A civilização do espetáculo, Mario Vargas Llosa também defende ideia semelhante, enfatizando que é o imigrante quem tem de se adaptar à cultura local, não o contrário.
Na Inglaterra, vale lembrar que Mohammed já é o nome mais popular entre os bebês do sexo masculino; e, só para se ter uma ideia de como o pavor de ferir suscetibilidades vai se transformando na pura submissão de um país às imposições de uma religião minoritária que representa apenas 4,5% de sua população, a rede Subway resolveu abolir todos os derivados de porco (basicamente presunto e bacon) de seu cardápio para, segundo eles, não ofender os muçulmanos.
Os conservadores, tratados no mínimo como porcos pelos esquerdistas, também tiveram suas ideias - ainda mais saborosas que presunto e bacon - abolidas do cardápio universitário ocidental para não ofender os professores militantes. E o resultado prático está aí: um rastro interminável de sangue.
* Veja também os vídeos abaixo:
1) Achando que conseguiria pegar David Horowitz no contrapé durante palestra no campus de UC San Diego (um dos mais esquerdistas dos EUA), uma estudante radical é confrontada com sua própria incoerência e admite publicamente o que poucos admitem:
2) A jornalista libanesa e sobrevivente do terror islâmico Brigitte Gabriel dá uma resposta arrasadora a uma estudante identificada como Saba Ahmedo em debate promovido pela Heritage Foundation sobre as mortes de quatro americanos em atentado em Bengasi, na Líbia.

Felipe Moura Brasil

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Os narcisistas “bem resolvidos”, a dissolução da família e o “genocídio” dos negros

Ainda em minhas “quase férias”, e fora do país, sobra menos tempo para escrever no blog. O que me leva a tentar ser o mais sucinto possível (tempo é dinheiro, e quando medido em dólares, especialmente agora que a moeda americana só sobe em relação ao real, tempo é muito dinheiro). Por isso esse texto aparentemente sem pé nem cabeça, reunindo vários temas em um só lugar. Nele, tentarei aglutinar duas colunas de hoje em jornais diferentes e mais uma reportagem, que falam de assuntos aparentemente desconexos, mas que, na realidade, possuem um elo comum, em minha opinião.

Começo pelo excelente texto, para não variar, de Luiz Felipe Pondé na Folha. O filósofo ataca o narcisismo da nova geração, aquela desapegada, “bem resolvida”, sem carência afetiva alguma, que não sente ciúmes e sequer sofre com uma separação conjugal. São leves, sempre felizes, postando fotos sorridentes nas redes sociais e sem as angústias milenares que atormentam os seres mais fracos, os reles mortais que alimentam inveja dos outros, que apostam no amor e sofrem com suas inevitáveis decepções. Diz Pondé:
Esta cultura, baseada no fracasso do investimento na prole e em vínculos duradouros, cai bem num mundo de gente bem resolvida. Existem até psicoterapeutas e psicanalistas que começam a abraçar a causa da cultura do narcisismo afirmando que narcisistas são melhor adaptados ao mundo contemporâneo porque não sofrem dos sofrimentos imaginários dos neuróticos que idealizam o amor.
Isso mesmo, um desses dias a psicanálise, que tanto resistiu às baboseiras do século 20, tombará sob o peso do mercado do narcisismo.
O mercado do narcisismo, além de investir em apartamentos singles com um parque de diversão na área social, vende, basicamente, estilos de vida e modas de comportamentos. Essas modas se concentram no cotidiano. Alimentação, lazer, trabalhos sem muito vínculo, relacionamentos solúveis na busca de autoestima.
Ah, tudo pela autoestima! Desde cedo esse “novo jovem” escuta que é especial, que basta repetir que é o máximo que assim será, tudo de acordo com os manuais de autoajuda e protegido do bullying. Ele não pode sofrer, pois a era do hedonismo não tolera isso. É a geração “mimimi”, acostumada a confundir seus desejos com direitos, e a levar a vida de forma superficial, sem muitos laços profundos, com “pouca bagagem”, como o personagem de George Clooney em “Amor sem escalas”.
Sem afetos externos que possam produzir sofrimento, apenas com afetos autorreferenciais. “Todo mundo muito bonitinho na fita, se roendo por dentro, mas vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos”, segundo Pondé. Se você muda a comida, a forma de se vestir e o transporte utilizado, ou seja, se você é um descolado que come comida orgânica “consciente” e vai de “bike” para o trabalho, então você não precisa passar pelos sofrimentos desnecessários que produziram as tragédias teatrais do passado.
E com tal postura os “novos jovens” querem menos filhos, pois filho demanda investimento de longo prazo, muita dedicação e esforço, envolvimento emocional forte, tudo aquilo que assusta a turma “bem resolvida” que leva a vida de forma mais light. Caso tenham filhos, eles não precisam mais se apegar tanto ao relacionamento como antes, não devem valorizar o núcleo familiar, pois gente moderna e “bem resolvida” sabe que tanto faz a configuração familiar, pois o que importa é cada um ser educado dessa forma “liberal” e desapegada, individualista ao extremo e hedonista. O que vale é o prazer do “aqui e agora”, pois no longo prazo estaremos todos mortos, e afinal, vivemos para o curto prazo. Carpe diem!
O exemplo dessa conduta livre, leve e solta dado por Pondé foi o da separação da atriz Gwyneth Paltrow e seu ex-marido do Coldplay, que deram declarações nas redes sociais de que “agora” a família deles estava melhor e que eles não sofreram com o fim do casamento. Quando a dissolução familiar é vista com tanta naturalidade pela elite, o estrago é limitado. Mas quando a ideia em si começa a se disseminar em ambientes mais populares, como nas favelas e comunidades da periferia, o estrago pode ser bem maior, como mostra Charles Murray em Coming Apart.
Murray compara estatísticas da classe alta e de uma comunidade pobre nos Estados Unidos, mostrando como se criou uma verdadeira bolha que separa ambos os estilos de vida. O que num ambiente pode ser “bonitinho”, “moderno”, pode representar a catástrofe no outro. O psiquiatra britânico Theodore Dalrymple também costuma mostrar em seus livros os efeitos perversos das teorias das elites na vida prática dos mais pobres. São esses que acabam pagando um preço mais alto pelo “progressismo” dos “bem resolvidos” e seu narcisismo hedonista.
O que me remete ao segundo texto, de Carlos Alberto Di Franco, justamente sobre a importância do núcleo familiar na vida dos mais jovens. Os lares destruídos costumam produzir probabilidades maiores de desvios nos mais jovens, e apesar de todo o discurso moderno contrário, ainda não se inventou uma instituição tão sólida como a família para mitigar tais riscos. Diz o jornalista:
Para a jurista Leah W. Sears, ex-presidente da Suprema Corte do estado da Geórgia, “um direito de família que não incentiva o casamento ignora o fato de que ele é associado a um amplo leque de resultados positivos — tanto para crianças como para adultos”. A seu ver, “os índices elevados de fragmentação da família estão prejudicando as crianças”. E conclui a juíza: “Claro, muitos pais solteiros fazem um excelente trabalho e precisam do nosso apoio. Mas acredito que construir uma cultura do casamento saudável é uma preocupação legítima para o direito da família.” 
Concordo com a opinião de Leah W. Sears. A balança do bom senso pende para o lado da família. E a experiência confirma a percepção. Estudos mostram que crianças criadas fora do casamento estão mais propensas a abandonar a escola, usar drogas e envolver-se em violência. O Child Trends, um instituto de pesquisa americano, resumiu: “Filhos em famílias com um só dos pais, filhos nascidos de mães solteiras e filhos criados na nova família de um dos pais ou em relações de coabitação enfrentam riscos maiores de ficarem pobres.” Contra fatos não há argumentos.
Os estragos dessa ausência do núcleo familiar tendem a ser maiores entre os mais pobres. Mas atinge a todos: “Falta de limites e tolerância mal-entendida produziram muitos estragos”, escreve Di Franco. E isso tem tudo a ver com a postura mimada dos narcisistas modernos. Os adolescentes não podem se sentir envergonhados ou culpados de nada, precisam estar “bem” sempre.
O resultado é uma geração “desorientada e vazia”. Outro efeito é o relativismo ético, já que a culpa deve ser combatida, despersonalizada. Somado à impunidade, temos a receita certa para o caos da coisa pública, submetida a infindáveis escândalos de corrupção. A virada ética começaria, portanto, na família, segundo Di Franco. 
Juntando os dois textos, chego agora à reportagem da Folha para fechar a linha de raciocínio. Falo do que os movimentos raciais têm chamado de “genocídio dos negros”, pois as estatísticas mostram que as chances de um negro morrer vítima de homicídio são bem maiores do que as de um branco, até cinco vezes maiores no nordeste.  Diz o jornal:
Dos quase 30 mil jovens assassinados em 2012, 76,5% eram negros ou pardos. Ou seja: morreram 225% mais jovens negros do que brancos.
De 2007 a 2012, enquanto o total de homicídios de jovens brancos caiu 5,5%, o de jovens negros subiu 21,3%.
O estudo deve orientar políticas públicas para a juventude e responde a campanhas e protestos dos movimentos negro e de direitos humanos que apontam para o fenômeno como um genocídio da juventude negra brasileira.
Entre suas recomendações, o IVJ 2014 indica que políticas públicas para a juventude negra podem acelerar não só a redução da desigualdade racial mas também a da violência no Brasil.
Mas é preciso levar em conta que a deterioração das estatísticas para os negros ocorreu concomitantemente às políticas raciais mais favoráveis das últimas décadas, e também em um período em que a economia foi bem, especialmente no nordeste. Será que a solução é mesmo intensificar ainda mais a política de cotas raciais? Será que a saída é só financeira? Será que tem a ver com racismo?
Na mesma página, o jornal mostra como os motoristas estão sendo assaltados na volta do litoral no feriado, e a foto estampa um dos bandidos: negro.

Fonte: Folha
Se esse bandido for morto pela polícia em tentativa de fuga, será que faz sentido falar em “genocídio dos negros”? O bandido é, então, a vítima? Não há volição em seu ato criminoso? A causa é mesmo falta de dinheiro ou oportunidade? Mas não estamos em pleno emprego, como garante o governo? Não temos o maior programa de benefícios aos mais pobres da história? O que se passa, então?
O jornal entrevista ainda uma ex-traficante que diz ter perdido a conta de quantos jovens enterrou, e que hoje tenta tirar seu filho de 16 anos do crime. O rapaz quase entrou para as estatísticas recentemente, ao ser baleado numa tentativa de fuga da polícia. Ela atribui a alta mortalidade de jovens negros ao racismo e à situação socioeconômica desse grupo. “A gente vive nessa vida porque tem que manter a família, e o desemprego é grande. Quando a pessoa vai presa ou já teve envolvimento, não arruma emprego de jeito nenhum”, diz.
Não pretendo negar a influência da situação econômica, o que já derrubaria, porém, o discurso oficial do governo e suas estatísticas. Mas será que não há mesmo algo mais por trás? Mesmo com taxas de desemprego em patamares mínimos históricos, Bolsa Família e cotas raciais, temos visto um aumento da criminalidade e, como mostra a Folha, em termos desproporcionais entre os negros. Mas seria a cor da pele o motivo?
Chego, então, ao término do longo texto oferendo uma alternativa diferente para nossa reflexão. Será que o esgarçamento ético não teria mais ligação com a escalada da criminalidade, tanto das periferias como dos grandes escândalos de corrupção em Brasília, do que a pobreza? E será que essa perda de valores éticos não teria algum elo com a dissolução familiar? E esta, por sua vez, não estaria conectada ao crescente hedonismo moderno, a busca desenfreada por prazeres “sem culpa”, pela fuga de laços mais duradouros e profundos? E isso, não seria o resultado do narcisismo dos que não aceitam o risco do sofrimento inerente à vida humana?
Rodrigo Constantino