quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A Defesa Moral dos Combustíveis Fósseis


Alfredo Sirkis assina um artigo hoje, 16/02, em O Globo onde defende que o paíse deveria investir mais em energia solar, não por acaso, uma das meninas dos olhos dos ambientalistas, juntamente com a energia eólica. De acordo com o autor, já é tempo de dar à energia solar um empurrãozinho (leia-se: subsídios).   Sirkis abre o artigo com alguns dados:
A produção de energia solar, em todo o planeta, cresceu 39% em 2013. A Alemanha, com duas vezes e meia menos insolação que o Brasil, já é capaz, em determinados dias de verão, de atender 40% do consumo com suas “fazendas solares” e geração solar distribuída. A China em poucos anos tornou-se uma potência solar, conseguindo baratear seus painéis fotovoltaicos em mais de 80%. Os EUA incrementaram seu solar em 418% entre 2010 e 2014.
O que Sirkis não diz é que, apesar de todos esses incrementos, a energia solar representa menos de um por cento da energia consumida no mundo, como mostra o gráfico abaixo.
Ao ler o artigo de Sirkis, não pude deixar de lembrar de um excelente livro que li há pouco: “A defesa moral dos combustíveis fósseis”, de Alex Epstein.
Segundo Epstein, os “experts” quase sempre se concentram sobre os riscos e os malefícios inerentes aos combustíveis fósseis, mas quase nunca nos seus imensos benefícios. E os benefícios dessa energia barata e confiável, que alimenta as máquinas e equipamentos de nossa civilização são enormes. Na verdade, eles são fundamentais para nossa vida, produzindo alimentação, vestuário, abrigo e assistência médica abundantes, entre outros bens e serviços.
Não por acaso, segundo Epstein, e ao contrário do que gostariam os ambientalistas como Sirkis, “a partir da década de 1970 até o presente, os combustíveis fósseis têm sido esmagadoramente o combustível escolhido, particularmente nos países em desenvolvimento. Se, nos Estados Unidos, entre 1980 e 2012, o consumo de petróleo aumentou 8,7%, o consumo de gás natural aumentou 28,3%, e do consumo de carvão aumentou 12,6%, durante esse mesmo período, no mundo em geral, o aumento do uso de combustíveis fósseis foi muito maior. Hoje, o planeta utiliza 39% a mais de óleo, 107% mais carvão e 131% mais de gás natural que em 1980”.
Enquanto isso, as energias prediletas dos ambientalistas – solar e eólica – representam apenas uma percentagem ínfima da energia consumida no mundo, pois além de serem muito caras, são pouco confiáveis, principalmente em razão da sua intermitência e dificuldade de armazenamento.
Epstein demonstra no livro, através de um grande número de dados conhecidos, a forte correlação histórica entre o aumento do uso de combustíveis fósseis e o incremento dos padrões de vida do ser humano.
Há dados interessantíssimos, embora contrários ao senso comum e às notícias alarmantes que a mídia em geral não para de produzir, demonstrando de forma inequívoca as reduções drásticas nos infortúnios relacionados com o clima, incluindo as mortes por secas, tempestades, inundações, nevascas, etc.
Como não poderia faltar, há capítulos inteiros dedicados ao aquecimento global, onde o autor separa o que há de científico do que é simplesmente alarmismo baseado em hipóteses que não estão se confirmando.  Para começar, ele explica a ciência por trás da teoria do Aquecimento Global:
“Aqui está o resumo do que realmente ocorreu – um resumo com o qual quase todos os cientistas do clima teriam de concordar. Desde a revolução industrial, a proporção de CO2 na atmosfera aumentou de 0,03% para 0,04%, e as temperaturas subiram menos de um grau Celsius, a mesma taxa de aumento ocorrida em muitos outros pontos na história. Poucos negam que, durante os últimos quinze anos ou mais, um período acentuado de aceleração das emissões de CO2, tem havido pouco ou nenhum aquecimento – algo que nenhum dos modelos conseguiram prever…
Portanto, todas as previsões de futuras consequências drásticas estão baseadas em modelos especulativos que não conseguiram prever a tendência até aqui, e especulam sobre uma tendência radicalmente diferente do que o que realmente aconteceu nos últimos 30 a 80 anos de emissões em quantidades substanciais de CO2 .”
O que nos traz ao gráfico mais estupefaciente de todo o livro, que mostra de forma claríssima como todos os modelos de previsão climática falharam até aqui de forma drástica:

E são esses mesmos modelos falhos que ainda tentam nos empurrar goela abaixo para nos convencer de que os combustíveis fósseis representam o apocalipse da humanidade.
Epstein trata ainda, de forma interessante e didática, da questão da “sustentabilidade”, explicando que “recursos” não existem em si mesmos, mas são o resultado da inovação e da tecnologia humanas.
“Os recursos não são tomados da natureza, mas criados a partir da natureza “, diz ele. “O que vale para as matérias-primas de carvão, petróleo e gás, também se aplica a cada matéria-prima na natureza. Eles são todos os recursos possíveis, com potencial ilimitado a se tornar valioso pelas mentes humanas. . . . Não há limite inerente para os recursos energéticos – só precisamos de liberdade e da engenhosidade humana para para descobrir maneiras de transformar energia sem uso em energia utilizável…”
Este é o princípio que explica a forte correlação entre o uso de combustíveis fósseis e o enorme progresso havido nos últimos dois séculos: a engenhosidade humana transformando recursos potenciais em recursos reais – incluindo o recurso mais fundamental, a energia.
“Se olharmos para a história”, diz Epstein, “uma porcentagem extremamente desproporcional de idéias valiosas ocorreram nos últimos séculos, coincidindo com a civilização do combustível fóssil. Por quê? Porque tal civilização produtiva nos compra tempo para pensar, descobrir e, em seguida, usar esse conhecimento para nos tornar mais produtivos…  Devemos ser gratos às gerações passadas pela produção e o consumo de combustíveis fósseis, e não pensar em restringi-los e tentar sobreviver com algo inferior”.
Na verdade, temos volumes efetivamente ilimitados de recursos à nossa disposição, diz Epstein. Tempo é o insumo de que mais precisamos: “Se a vida humana é o nosso padrão, então o recurso mais importante em que se deve focar é o nosso tempo. O uso de combustíveis fósseis nos compra tempo. Ela nos compra mais vida. Ele nos compra mais oportunidades. Ele nos compra de mais recursos. Os combustíveis fósseis são uma ferramenta incrível para criar esta valiosa forma de riqueza, este recurso supremo: tempo para usar as nossas mentes e os nossos corpos para desfrutar de nossas vidas, tanto quanto possível.”
Isso traz Epstein ao seu capítulo final, que envolve uma discussão da patologia mental ambientalista. “A razão pela qual eles se opõem aos combustíveis fósseis, e não enxergam as suas virtudes, não é principalmente por causa da falta de conhecimento factual, mas por causa da presença de um preconceito irracional . . . . O preconceito, encampado de forma consistente pelas lideranças ambientalistas … está na ideia de que a natureza intocada é o padrão último de valor.”
“A oposição dos líderes ambientalistas aos combustíveis fósseis … é uma tentativa coerente de perseguir o seu nível real de valor: um ambiente puro, uma natureza intocada. Energia é o nosso meio mais poderoso de transformar o ambiente em nossa volta para atender às nossas necessidades. Se o nosso padrão de valor é um ambiente inalterado, não transformado, então nada pode ser pior do que a existência de uma energia barata, abundante, e confiável.”
Evidentemente, Epstein não nega que o desenvolvimento e a energia dos combustíveis fósseis que o sustenta criam subprodutos – como o “smog” do carvão que ocorreu no passado em Londres e atualmente acorre em várias cidades chinesas – que devem ser minimizados, como já é feito nos países mais adiantados.  Mas esses subprodutos devem ser vistos no contexto geral dos benefícios obtidos a partir dos combustíveis fósseis.  E, como ele muito bem explica no livro, esses benefícios superam em muito os eventuais efeitos negativos, além do fato de que as novas tecnologias têm conseguido cada vez mais neutralizar esses efeitos.
Por: João Luiz Mauad

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A economia do Masoquistão, o país dos masoquistas

O Masoquistão, país de dimensões continentais situado abaixo da linha do Equador, é a terra dos masoquistas. O governo dessa estranha nação se esforça para tornar a vida um eterno inferno, enquanto os cidadãos escolhem os políticos que mais os castigam. Hoje falaremos da economia do Masoquistão, área em que esse padrão de comportamento se revela de forma mais patológica.

As empresas estatais do Masoquistão oferecem serviços terríveis, criam rombos no orçamento, estão atoladas em corrupção e de vez em quando abrigam acidentes de trabalho com explosões e morte de operários. Por isso mesmo os cidadãos as consideram orgulho nacional – e são radicalmente contra propostas de privatização. Na campanha eleitoral, candidatos se valem desse tabu para trocar acusações. “Você vai privatizar! Vai nos livrar daquela empresa que nos faz tanto mal!”, diz um candidato. “Pelo contrário, vou reestatizar”, responde o adversário.
Jovens estão entre os defensores mais radicais do sofrimento causado pelas estatais e pelo urbanismo do Masoquistão. Enquanto a Justiça e a imprensa revelam escândalos bilionários de corrupção na maior empresa estatal do país, jovens manifestantes tomam as ruas, depredam bancos e queimam carros reivindicando:
- Queremos mais estatais! Lutamos por uma grande estatal do transporte coletivo!
Os políticos com mais sucesso no Masoquistão estão sempre atentos a formas de aumentar a agonia dos cidadãos. Um caso exemplar dessa tendência ocorreu em dezembro de 2013. Em pleno período de férias, quando milhares de pessoas se preparavam para viajar ao exterior, o governo elevou o aumento do imposto para compras internacionais no cartão de crédito. A medida foi considerada urgente para garantir a preocupação dos habitantes mesmo quando estivessem fora do país.
As leis trabalhistas do Masoquistão são conhecidas no mundo inteiro por tirar o incentivo a contratações e empurrar metade dos trabalhadores do país à informalidade. Por isso mesmo, quando o governo pensa em flexibilizar as leis, provoca uma gritaria geral da população. Rapidamente o governo volta atrás; diz que foi um mal-entendido e promete seguir atrapalhando os trabalhadores.
Todos no Masoquistão sabem que poderiam comprar carros, computadores, remédios, máquinas, equipamentos médicos e uma infinidade de produtos muito mais baratos no exterior. Ora, isso seria fácil demais. Para evitar algo que poderia ser considerado felicidade, todos por ali concordam que é preciso elevar barreiras alfandegárias e dificultar a compra de importados.  Sem concorrência, as montadoras nacionais produzem carros mais caros, de pior qualidade e com menos segurança que os importados. Tudo o que masoquistaneses mais desejam.
É verdade que nem tudo no cotidiano do Masoquistão é sofrimento. Alguns empreendedores até conseguiram facilitar a vida dos moradores, fornecendo a eles comida barata, aparelhos eletrônicos e remédios a doenças antes incuráveis. Se os masoquistaneses gostam? Nada. Eles culpam as empresas e o agronegócio por todos os problemas do país. Aprendem na escola a odiar grandes empresas e idolatrar líderes que lutaram contra o capitalismo, empobreceram países e ergueram ditaduras.
Na história recente do Masoquistão, uma presidente se destacou por esculhambar a economia inteira. Aumentou a dívida pública, descuidou da inflação, quebrou contratos e afugentou investidores e empresários que criariam empregos. Foi reeleita com festa pela população.

Por: Leandro Narloch

fonte: http://veja.abril.com.br/blog/cacador-de-mitos/2015/02/11/a-economia-do-masoquistao-o-pais-dos-masoquistas/

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Dostoievsky e o PT

Por Flavio Morgenstern, publicado no Instituto Liberal

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A maneira de o PT fazer política é simples e consabida: cria “programas sociais” que nada mais são do que modelos de cotas para qualquer atividade humana, tentando “incluir” mais pessoas na sociedade economicamente ativa.
Funcionais ou não, tais programas repetem a mesma estrutura em todos os ramos, tornando cada novo passo político petista apenas uma repetição do mesmo script.
O Fome Zero, pelo qual Lula foi até indicado ao Prêmio Nobel da Paz antes de descobrirem quão mal feito e risível era (gerou ruptura de Lula até com Frei Betto, notório caudatário da ditadura de Fidel Castro), nada mais era do que a “transferência” forçada de dinheiro dado em gorjetas em restaurantes para um “fundo” que daria parte do montante a alguns pobres.
Fracassado de cabo a rabo, o programa logo foi forçosamente “esquecido” pelo partido, sem que praticamente ninguém na imprensa, que deveria vigiar o governo, cobrasse os governantes pelo desastre. A seguir, veio o Bolsa Família, aparentemente com menos furos, em que o governo simplesmente dá dinheiro que toma por impostos de outras pessoas para alguns pobres, que lhe respondem com uma obediência eleitoral de joelhos, como se Brasília fosse Meca.
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Assim é o Minha Casa, Minha Vida: toma-se dinheiro de impostos para criar casas para os mesmos que pagam impostos. Assim é o Mais Médicos: cria-se postos de saúde ocupados por semi-escravos cubanos ao invés de permitir que profissionais trabalhem onde querem. O Fundo de Amparo ao Trabalhador também toma dinheiro do trabalhador para que este agradeça ao governo quando este resolve lhe dar uma parte de volta. O PROUNI também força cotas em universidades.
E assim segue o modelo, do Luz no Campo ao Brasil Carinhoso, que “tira da miséria” modificando os critérios de pobreza, dando dois reais aos pobres e dizendo que “acabou com a miséria”. O esquema permanece até em fiascos retumbantes, como o Primeiro Emprego ou o Fome Zero.
Antes do PT, “programas sociais” eram formas mais “ativas” de o governo intervir na economia.
Num sistema capitalista, as pessoas produzem riqueza (material ou mesmo de idéias) e trocam pelo produto do trabalho das outras. É o chamado laissez-faire (“deixe-os fazer”). Alguns, que não gostam do esforço necessário para enriquecer, buscam atalhos. Usualmente através do Estado, a única instituição que pode agir sempre por força, tomando algo de algumas pessoas e “dando” a outras, através de um planejamento central de alguns burocratas. É o intervencionismo, chamado politicamente de “social-democracia”, ou Welfare State.
Acreditada por muito tempo como a melhor forma de governo, pois aparentemente “tira os pobres da pobreza”, a social-democracia soa inatacável até hoje, depois de exibir sinais de derrocada até no suposto paraíso nórdico.
Os liberais, tratados como insensíveis à pobreza, apenas conhecem o truque: o governo não produz nada, então, quando um governante aparentemente “dá” algo a alguém, não está tirando dinheiro do seu próprio bolso, e sim tomando do bolso alheio. Sem produção de riqueza no processo, os produtores têm menos incentivos para produzir (sendo consumidos por impostos), e a riqueza vai diminuindo, tendo-se cada vez menos algo a “distribuir”.
Aproxima-se os pobres dos ricos não tornando os pobres ricos (no máximo, ganham algumas migalhas da obediência eleitoral), mas sim tornando os ricos mais pobres. A social-democracia, aparentemente perfeita no curtíssimo prazo, é uma catástrofe humanitária no longo, enquanto o capitalismo enriquece cada vez mais os pobres, como mostra o Índice da Liberdade Econômica. É o migalhismo contra a riqueza da liberdade.
Tais programas sociais do Welfare State eram combatidos por Lula quando era oposição. Lula era contra o Bolsa Escola, que pagava uma mensalidade a famílias pobres, desde que mantivessem os filhos na escola. Era contra o Leve Leite de Paulo Maluf em São Paulo, que fazia o mesmo com latas de leite em pó. Era contra qualquer distribuição de cesta básica ou outras formas de compra de voto disfarçadas.
Tal fato ficou registrado em um famoso vídeo de Lula em 2000, quando ainda não estava no governo, xingando os críticos de seus programas de imbecil e ignorante.
O Bolsa Família simplificou tudo: acabou com o disfarce. Compra-se o voto e pronto, e com dinheiro vivo. O Lula que criticava quem votava com o estômago agora é contra quem não vota estomagado.
Por que isto se dá? A resposta também é simples: a tentação do poder. Libido dominandi, estudada desde Santo Agostinho. Para explicá-la, nada melhor do que recorrer ao maior clássico russo.
Nem só de pão vive o homem
Assistindo a todo o teatrinho petista desde 1880, Fiódor Dostoievsky, considerado por 9 em cada 10 falantes o maior romancista de todos, sem que nunca seja entendido direito, conhecia muito bem os planos de Lula, Dirceu, Dilma e toda a caterva petista.
Em sua última obra, Os Irmãos Karamázov, uma disparidade de vozes adversas e cheias de conflitos internos são postas a debater os assuntos mais filosóficos, sobretudo concernentes à religião.
flavio3Ivan Karamázov, o irmão do meio, intelectual e lutando contra a melancolia da rejeição e inadequação ao mundo, é um ateu descrente dos descrentes da época, preferindo mesmo argumentar a favor da superioridade moral da Igreja, ainda que sem Deus, aos fanáticos revolucionários ou até aos burocratas do Estado moderno.
Em um dos momentos mais sublimes da prosa mundial, Ivan conta a seu irmão Aliócha Karamázov, noviço de um monastério, um poema que pretende escrever, chamado O Grande Inquisidor (trecho tão grandioso que é muitas vezes tratado como um conto à parte do livro). No poema, Jesus Cristo volta à Terra em plena Inquisição espanhola, sendo trancafiado por um velho inquisidor imediatamente.
Seu algoz comenta a Jesus de quando Ele fora “tentado” no deserto (Mateus, 4:1-11), afiando que o espírito tentador, na verdade, conseguiu reunir a sapiência de todos os sábios futuros da Terra – “governantes, sacerdotes, cientistas, filósofos, poetas”. Lula e o PT inclusos. Resumiu o diabo “toda a futura história do mundo e da humanidade” nestas três tentações.
Quando o espírito quer que Jesus prove ser o Filho de Deus transformando as pedras em pães, Jesus obtempera, mesmo faminto no jejum: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”.
O que o tentador faz, na verdade, além de demonstrar simploriedade e reducionismo no falso ceticismo, é resumir toda a questão da liberdade dos homens diante dos governantes, “porquanto para o homem (…) nunca houve nada mais insuportável do que a liberdade!”
No bojo da tentação impingida a Jesus, resta o pecado mortal e mortífero da subordinação de toda a raça humana. É como se o diabo pedisse para transformar as pedras em pães “e atrás de ti correrá como uma manada a humanidade agradecida e obediente, ainda que tremendo eternamente com medo de que retires tua mão e cesse a distribuição dos teus pães”.
flavio4Alguém mais notou que Jesus resistiu à tentação, mas nenhum petista, nenhum social-democrata, nenhum burocrata da “reforma social” deixou de sucumbir à perdição de transformar pedras em pães, ainda que temporariamente, ainda que falsamente, mesmo que simplesmente manipulando índices, em nome de ter agradecimentos obedientes, de homens reduzidos a pedintes gratos, despidos de toda vergonha, honra, trabalho e destino próprios, solícitos a cobrir de ovações e votos ao primeiro que sacrificar sua liberdade no altar da mistificação e da manipulação da realidade em troca da mais ínfima migalha gratuita?
Jesus notou a contradição: “Que liberdade é essa se a obediência foi comprada com o pão?” Certamente não a liberdade de ver a realidade como é, sem querer manipulá-la pela bruxaria e tapeação.
Alguém que viva apenas de pão pode ver algo além do maior tirano como um grande benfeitor, escondendo o seu medo de que pare de lhe dar pães?
É o que diz o inquisidor, crendo que o tentador mostrou tão bem como o homem se resume a uma besta fera buscando saciar seus apetites quando não é mais livre: “Sabes tu que passarão os séculos e a humanidade proclamará através da sua sabedoria e da sua ciência que o crime não existe, logo, também não existe pecado, existem apenas famintos?”
Pode-se ler tal clarividência sem pensar em como são fracos os espíritos de quem justifica o mensalão – ou mesmo de quem o aceita como um “mal menor” em nome da “justiça social” da “distribuição de renda”, o migalhismo esmolista petista? Pode-se não se pensar na mídia governista? Na blogosfera progressista? Em homens menos rastejantes, mas ainda verminosos, do escol de Foucault, Lacan, Gramsci, Marcuse, Derrida, Zaffaroni, Negri e outros negadores do crime?
São os que preferem o rebanho obediente, que dirá: “É preferível que nos escravizeis, mas nos deem de comer”. Não existe mais crime, apenas “causas sociais”, sobretudo a desigualdade econômica. Para estes, “até a morte é mais cara do que o livre-arbítrio no conhecimento do bem e do mal”. É o selvagem de Rousseau, só consciente de seu apetite.
A crise do PT disputando poder ou da social-democracia precisando pagar a conta surpreende alguém? Não ao inquisidor de Ivan Karamázov: “Finalmente compreenderão que, juntos, a liberdade e o pão da terra em quantidade suficiente para toda e qualquer pessoa são inconcebíveis, pois eles nunca, nunca saberão dividi-los entre si!”
flavio5Jesus rejeita a bandeira do pão e da terra (curiosamente, divisa comum aos comunistas, nazistas e futuros partidos sindicalistas e “trabalhistas”) em nome da liberdade e do pão dos céus. Todavia, alerta o inquisidor, “Eles destruirão os templos e cobrirão a terra de sangue. Mas essas tolas crianças finalmente perceberão que, mesmo sendo rebeldes, são rebeldes fracos que não aguentam a própria rebeldia.”
Se antes o rei benevolente precisava ser milagroso, hoje o burocrata da obediência mundial, da destruição de consciências no formigueiro da igualdade e unanimidade modista, pode ser um novo ídolo sem tanto: “Ao receberem os pães de nossas mãos, eles, evidentemente, verão com clareza que os pães, que são seus, que eles conseguiram com as próprias mãos, nós os tomamos para distribuí-los entre eles sem qualquer milagre, verão que não transformamos pedras em pães e, em verdade, estarão mais alegres com o fato de receberem o pão de nossas mãos do que com o próprio pão!”
Fica alguma dúvida da razão do fanatismo petista, da crença de que a distribuição justifica qualquer crime, da mistificação sobre as figuras falsas dos mandantes-em-chefe, da nulidade cultural e de consciências inovadoras entre as hostes petistas?
Dostoievsky, é claro, sabia antever tudo. E nunca votaria na esquerda ou no PT.